quinta-feira, 13 de setembro de 2018

ecos


vozes ecoam pelo bosque
repleto de fantasmas, pássaros
- lágrimas 
escorrem -
sobrevoam as árvores
e as cobras rastejam
sob a luz da lua.

(quem têm medo da morte?)

a imagem do sonho desvanece
o reflexo na água escurece
mil rostos em um
homem de lugar nenhum
a vaidade é cadafalso
no lodo, a mais breve lembrança 
enternece.

(quem têm medo do amor?)

ecos ressoam pela floresta
repleta de traumas cor de cobre
- olhos
descerram - 
no desfolhar da noite 
o sonho remonta
entre odores e flores
borboletas flutuam
sob a luz do sol.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Tempo da muda

Gaia reborn (2015)
Jan Kasparec


no tempo da muda

é preciso entender

a renovação que chega

e desaparecer

para renascer

saber perecer

para de novo ser

pois é preciso

continuar

a ampliar

sempre

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

polifonia


Soleil couchant à Etretat - Claude Monet - 1883


palavras podem 
ser
refúgios

acordes 
transformam
ruídos

poesias 
acolhem
soluços

que a música 
sussurrou
em meus ouvidos

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Sangrar até curar?


Uma história. Qualquer que venha a ser. Inventa. Hoje. Não para no pensamento. Sai da razão. Deixa fluir o devir. O que não se sabe. Id. Memória oculta. Realidade. Dualidade. Tarancón remonta à saudade. À lembrança. Voz ancestral. Tambor. Amor e dor. Pulsante. Energia que sai. De si. Em Si. Bemol. Sol. Sustenido. Ressoa. Aquece. Não fica em casa, não. Fica. Vai. A noite sagrada. O ritual se inicia. Faravahar. Jornada madrugada adentro. A luz. A montanha. Me vejo voando ao redor da lamparina que imagino a iluminar minha cabana. Ou seriam pirilampos? (será que eles falam esperanto?). Para, vai, pra que todo esse pranto? Para o homem que inventou o fuzil, pra que tanta matança? Menos sangue e mais dança. Alegria. Criança. O circo platinado acaba de pousar aqui ao lado, vejo pela minha janela. Vamos ver o bêbado equilibrista e a acrobata maluca. Dizem que a fama da dupla arrebata multidões em galáxias distantes. Dentro de um sonho, vocês podem se perguntar. Mas por hora apenas digo que já estou dentro do picadeiro - e o palhaço me chama para uma conversa sobre a flexibilidade do rabo do crocodilo. Em face ao rabo da lagartixa, o que difere? Gracias a la vida nada é igual, tão únicos são os gestos mais simples e distantes, como o olhar de uma aldeã ao horizonte deserto naquela manhã de 13 de dezembro de 1417, numa vila próxima à Vladivostok, ao lembrar do único beijo trocado com o homem - ou seria mulher? - que ainda amava, e ama. Enquanto destinos se afastam, caminhos se encontram, se reconhecem, se cruzam, sempre. E o que se busca? O vislumbre? Ou seria o relance? "La vida és eterna em cinco minutos". Te Recuerdo, Amanda. Linda canção de Victor Jara. Pinochet, que se se prestasse a ser humano somente por cinco segundos, não o destroçaria, como o fez, assim como com o sonho chileno. O sonho será sempre a utopia do possível e, por tal, eterna contradição? Tá tudo tranquilo, afinal. Tudo bem, vou ser um pouco sincero: por vezes tenho suado sangue. Mas não será sempre assim, mesmo? Sangrar até curar? Fazer a ferida pulsar, feito magma. Até sublimar? Que vontade de ver o mar...


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Fênix

(Foto: Tiel Lieder)

Desaparecer
entre desencontros
ledos escombros
desvanecer.

Refundir
a essência inata
a beleza flauta
ressurgir.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Mulher imensidão





Mulher coração
Tua vibração enternece
Mulher emoção
Tua anunciação precede

Mulher aluvião
Teu ventre aquece
Mulher encarnação
Teu seio ascese 

Mulher sofreguidão
Teu pensamento enlouquece
Mulher sedução
Teu perfume permanece

Mulher criação
Tua imaginação insondável
Mulher revolução
Tua intenção venerável

Mulher natureza
Tua nobreza sinfonia
Mulher fortaleza
Tua certeza assovia

Mulher mundo
Teu caminho eterno
Mulher profundo
Teu sopro moderno

Mulher cor
Teu arco-íris a sonhar
Mulher flor
Tua íris a brilhar

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Brasil moribundo

Caça ao Leão (esboço) - Eugène Delacroix - 1854


Perdida, debalde

Em algum lugar

Entre o céu e o mar 

Desaba, em oculto arrabalde


A verdade

Pesada como o chumbo

Abatida, sem piedade

Neste Brasil moribundo










quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Voluntad



Voluntad

El mover

El ser

Rumo al amanecer

De una nueva era

De un nuevo hombre

Más mujer

Y de una nueva mujer

Más espíritu

Y una nueva consciência

Y juventud

De un nuevo aire

Más leve

Más limpo

Más breve

Y perene

Un nuevo sentimiento

Más fraterno

Y más sereno

Un encuentro

Un sufrimiento

La búsqueda

De la cura

De la sanidad

Todos somos

Unos

Todos somos

Todos

Nada somos

Y de la nada

Que desear

Que esperar

Limitarse

Viene redivivo

Infinito

Solar

Lunar

El mar

Tantos universos para desentrañar

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Réquiem para um ser humano



Réquiem para um ser humano
Homem do povo
Invisível suburbano
Tão somente vil, estorvo

A pele negra
Tez escura
A morte como regra
Nesta rua tão dura

Escravo eterno
Estatística contraditória
Em teu íntimo inferno
Pós-moderna palmatória

Tiro certeiro
Na testa
Preto cordeiro
Fim de festa

Tua lembrança
Vive em mim
Tua voz, esperança
Também sou eu, sim!

17/09/2016 - para Amarildo e todos os negros mortos sem razão nem coração nas periferias do Brasil



Réquiem para meu primo



Réquiem para meu primo
Irmão
Tua lembrança, comigo
Tua emoção

À vida exaltou
Com fé
Tua alma entregou
À Sé

À Deus
Aos teus filhos
Ilusório adeus
Somente o bailar de teus cílios
[e brilhos

Permanece
Em meu coração
O olhar que enternece
A reluzir imensidão

Louvado seja
Teu espírito
Suave, arpeja
À nós, o infinito

À ti ofereço
Meu amor
Em ti revejo
A iluminar, tão belo esplendor!


17-20/09/2016 - para meu primo Rodrigo

Réquiem para um santo



Requiém para um santo
Palhaço
Todo esse pranto
Aquele abraço

Tua presença
Incensa, imensa
Tua ausência
Tão densa

Nas lágrimas do povo
Tua lembrança deságua
Nas angústias, estorvo
Na esperança, Aconcágua

Que o sorriso vasto
Verdadeiro
Que o rebrilho fausto (lauto)
Brasileiro

Que teu olhar terno
Traga aos corações puídos
Teu reviver eterno
E renasça teus órfãos caídos

Para que tua presença
Infinita
Tal primaveril renascença
Siga colorida, e bonita

Do Rio São Francisco
Agora és protetor
Ágil como um corisco
És o cantador

És agora louvor
De Marte, da arte
És reator
E para todo sempre 

Será esplendor!


17/09/2016 - para o ator Domingos Montagner

terça-feira, 26 de julho de 2016

Não sou

"Tristan Bernard Speaker" - Edouard Vuillard (1894)

Sou contradição
Coração
Pulsão

Sou matéria
Miséria
Artéria

Sou inveja
Peleja
Igreja

Sou fragmento
Sentimento
Movimento

Sou retração
Ambição
Erosão

Sou corte
Sorte
Morte

Sou amor
Horror
Esplendor

Sou patético
Profético
Herético

Sou metamorfose
Esclerose
Cirrose

Sou medo
Ledo
Enredo

Sou ator
Dor
Reator

Sou vaidade
Vontade
Eternidade

Não sou


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Para não se ver

Saturno devorando a su hijo  - Francisco Goya - 1823

A solidão e a angústia do ser
A conexão desconectada
Um caleidoscópio de imagens
Para não se ver

O ser apartado
O país cingido
O mundo aturdido
Num breve estampido

Beijos tão vorazes
Sexos tão fugazes
Encontros tão repentinos
Enlaces tão sem destino

Na era dos extremos
A pluralidade é apenas dissimulação
Nos discursos violentos
A democracia não passa de ilusão

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ser mãe




É tornar infinita a extensão do abraço
Amar sem tempo nem espaço
Na prole reconhecer o traço

É amparar com suave enlevo
Transmitir o carinho longevo
Recriar o sentimento primevo

É nos filhos enxergar a eternidade
Indicar-lhes o caminho da verdade
Para que vivam em amor e bondade

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Desnuda

Diante a plateia

Luiza

Celebra a vida

Incerta

E bela

Num canto

Explosão

Num recanto 

Louvação

Ressoa

A loa

Ecoa

A aldeia

Serpenteia

Tupinambá

Poesia

Neruda

Revoa

A emoção

Manjedoura

Iemanjá

E Jesus

A abençoar

Doce lamento

Coração

Suave momento

Movimento

Sentimento

Para além

Da dor

Amor


Sobre o show de Luiza Lian, em 19 de abril de 2016, no Sesc Pompéia.
Linda intérprete, linda banda, linda noite.
Lindas fotos de Fernando Banzi, aqui.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Lá vai São Francisco...



Lá vai São Francisco
em seu caminho
de amor e labor
sem ostentação ou penhor

Lá vai São Francisco
em seu caminho 
exemplo eterno
alegre, fraterno

Lá vai São Francisco
em seu caminho
como um pássaro a voar
como Jesus, a propagar

Liberdade
Louvor
Humildade
Amor



Poema escrito na Basílica de São Francisco de Assis, em maio de 2010, inspirado pela poesia de Vinícius de Morais e pela energia sem igual que reverbera daquele sagrado local.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A alma que não se jaz

Cliffs near Dieppe - Eugene Delacroix - 1855

O homem sem importância
Caminha pela multidão
O homem sem relevância
Caído na contramão

Engrenagem
Ferrugem
Sabotagem
Fuligem

Invisível consciência
Corpo ausente
Sem direito à Renascença
Em desterro presente

Todos os rostos
Em um
Destinos sem pórticos
Rumo a oásis algum

Porto solidão
Homem de lugar nenhum
Silenciosa condição
Do homem comum

Todo dia
É tudo tão igual
Toda vida
É tudo tão real

Mas por detrás
Desse olhar tão vago
Desse ombro tão baixo
Há a alma que não se jaz


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Quarta-feira de Cinzas


Quarta-feira de Cinzas
O Carnaval se despede
Se esvaíram as tintas
Se acabaram os confetes

Pelas ruas de ressaca
Caminham corpos sem sonhos
Pelas passadas fuzarcas
Esgueiram almas sem olhos

Dos dias e noites sem Dó
Restaram tão poucos em Si
E naquele que ensandece sob o Sol
Desvanece a essência em Mi

Em todos os desejos, vulcões
Em todos os sambas, fantasias
Em tão belos realejos, sensações
Em tão sedentos corações, utopias
            
 [?]     

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Miração

Caminhante sobre o mar de névoa -  Caspar David Friedrich - 1818



...

daqui do alto

o horizonte descortina-se

claro

iluminado

feixes solares

banham meu rosto

aquecem meu inverno

...

daqui do alto

o horizonte é todo liberdade

infinito

sonhos alucinados

invadem meu espírito

ampliam meu destino:

...

mas, onde estarão minhas asas?